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bocadinhosdevida

Neste espaço escrevo. Escrevo apenas. Escrevo porque gosto desde que me conheço. Quero entreter com uma linguagem simples, partilhando algumas situações do meu dia a dia ou recordações. O que for.

bocadinhosdevida

Neste espaço escrevo. Escrevo apenas. Escrevo porque gosto desde que me conheço. Quero entreter com uma linguagem simples, partilhando algumas situações do meu dia a dia ou recordações. O que for.

A máscara

AlFernandes, 14.03.21

Pensei, pensei e pensei antes de publicar este texto. Não é um lamento nem um pedido de ajuda porque neste espaço escrevo apenas e, escrevo sobre a "máscara" porque talvez haja alguém que se reveja neste texto. E assim sabe que não é a única pessoa a sentir e a lidar com o mesmo que eu.

Não porque não.

Não quero continuar a viver a minha vida da forma como a tenho vivido.

Estou farta de me "mascarar" para não sentir. Não sentir a dor na alma. Mas a dor fica na mesma porque o que adormece é o corpo.

Estou agora a olhar para o fundo do poço que mesmo que tivesse água não iria refletir a minha imagem apenas porque eu já não sou eu.

Já não consigo ouvir uma música ou um filme sem debitar lágrimas.

Já não tenho vontade de me cuidar.

E estou a olhar para o fundo do poço como se pudesse ter uma resposta. Mas só escuto o eco do meu apelo silencioso.

Sim estou deprimida. Muito. Mas não tenho vergonha. Tenho só medo, muito medo de não ser capaz sozinha de parar de olhar para o fundo do poço que cada vez parece mais perto. Até porque, quem me quer dar a mão já não tem força para me agarrar e quem poderia ter força para me agarrar já desistiu, já não quer saber.

O meu médico de família poderia ter tido razão. Quando da chegada da pandemia a Portugal, na sua opinião, eu seria das primeiras a ir para o "outro mundo". Mas ainda cá estou e já tomei a primeira dose da vacina. E vou tomar a segunda. Não na esperança de prolongar a minha vida, mas com esperança de ajudar a deter a pandemia, no sentido de que quem gosta de viver o possa fazer cada vez com menos receio.

Receio tenho eu de ter de continuar assim nesta vida, desvalorizada e sentindo-me cada vez menos útil e capaz do que quer que seja, mesmo que queira. Tudo o que faço é arrastar-me até que chegue a hora. E no relógio da vida não tenho coragem de alterar a hora, para já. Mas posso ir fazendo com que os minutos passem mais depressa.

Mesmo assim, cá vou eu, vivendo a minha vida que antes da pandemia já era um pandemónio.

 

 

 

 

Rosa não é com certeza, mas lá que tem espinhos tem.

AlFernandes, 12.03.21

Este é um dos meus catos preferidos. Tem imensos espinhos mas de vez em quando dá estas flores lindas. Na verdade formam uma espécie de coroa de flores no topo.

Gosto de catos porque na sua maioria são verdes, têm que ser cuidados como outra planta qualquer, com amor e cuidado.

Há alguém que de vez em quando me recorda que temos que passar por entre os espinhos para alcançarmos a flor. E tem toda a razão.

Foi por esta e outras razões que dei por mim a dizer que sim à nova vacina disponibilizada pelo Governo Português. A Astra...

No dia seguinte ao ter dito que sim, estava no centro de saúde antes da hora marcada. Fui encaminhada para uma ala lateral e com acesso exterior. A recepção foi rápida. Depois fui para a primeira sala de espera (antes da toma da vacina).

A sala tinha um aspecto muito estranho. Havia um corredor pequeno, tipo entrada de quarto. No lado esquerdo havia um armário de portas grandes, do outro lado, uma parede pintada de lilás. Depois entrava-se na sala próprimamente dita. O chão era de algo tipo vinil em tons de zul gasto. A parede do lado direito era lilás e as outras brancas. Nas brancas havia algumas ligações elétricas, sendo possivél caregar o telefone. Havia ao fundo da sala uma janela  com uma persiana. Meio fechada e na parte meio aberta, um vidro opaco que não deixava ver nada para dentro nem para fora, minimizando ainda mais a luz que entrava.

Havia apenas uma luz acesa o que fazia a sala triste.

Tinha nove cadeiras, todas devidamente distanciadas e com ocupação uma sim, uma não...

As pessoas que esperavam tinham um semblante estranho e olhavam-se furtivamente e de lado umas para as outras.

Finalmente, a minha vez.

Levei uma blusa prática, foi só levantar a manga e deixar a enfermeira de minha confiança introduzir a agulha com o líquido. Fácil, indolor (na altura). Depois, algo que não esperava. Fui convidada par ir para outra sala durante trinta minutos (muito longos), esperar por reacções adversas . Entrei noutra sala, em tudo semelhante à primeira. A diferença eram as paredes que eram laranja, os armários de entrada estavam no lado oposto e havia mais uma luz acesa.

O ambiente era também um pouco mais descontraído, as pessoas estavam mais conversadoras e, algumas conheciam-se. Falavam sobre a vacina, sobre as notícias, sobre os efeitos adeversos. Houve uma senhora que não estava bem. Entrou a enfermeira, levou-a para repouso e voltámos ao "normal" na sala.

Entrei na conversa, quando fui reconhecida por uma pessoa.

Reconhecimentos com registo de memória de voz, porque havia a máscara. Foi preciso este contexto para reencontrar um amigo da rádio que não via há muito e falarmos sem preconceitos, sobre o que nos levou a reencontrar. Foi muito bom. Havia uma sintonia de ideias quase perfeita. Foi giro.

Entretanto, hoje numa das filas para as compras ouvi uma conversa entre alguém que foi sempre vacinado e não hesitou em ser vacinado com esta nova vacina, e quem nunca foi vacinado nem esteve doente por causa disso e, nem pensa em ser alguma vez vacinado. Deu pano para mangas enquanto a fila durou. Fiquei a pensar.

Agora acho que sei para que serve o "trono" que enconterei no campo...

 

Para pensar.

 

 

 

 

 

 

A cadeira

AlFernandes, 06.03.21

Não. Não me sentei na cadeira, apesar de sentir uma vontade imensa. Não maior do que a de abraçar a alfarrobeira, mas detive-me a pensar na pessoa que tinha posto ali a cadeira e o porquê.

Pensei: pode ter sido ali posta posta por um caçador "chique" ou, poderá ali estar porque é um bom sítio para ler. Tem imensa luz, não tem ruído urbano...muito zen.

Um autêntico "trono" no meio de nada.

 

Apeteceu-me fazer de conta.

 

A rosa

AlFernandes, 05.08.20

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No dia a seguir a esta foto, fui tentar tirar uma melhor. Mas a rosa já lá não estava nem o pequenino botão que um dia iria ter o esplendor da que vemos desabrochada.

Era tão bom passar em frente da sede dos Leões de Olhão e ficar a olhar para elas. Quem as levou, para além de ter cometido um crime, revelou egoísmo e falta de respeito pela natureza. Quem as plantou foi de certeza para que ali ficassem, junto dos leões, a dar-lhes cor e bom cheirinho.

E o que se passou com as rosinhas passa-se com quase tudo o que é belo. Alguém usurpa para proveito próprio, a menos que esteja em exposição e protegido com sistemas de alta segurança, como as grandes obras de arte feitas pelos humanos. Mesmo assim há sempre quem as tente levar.

A beleza é efémera. Dura o que dura (até nos humanos).

A maior parte dos humanos quando a flor murcha deitam-na fora.

A maior parte dos humanos quando envelhecem são "escondidos" e muitas vezes esquecidos e negligenciados. Os humanos esquecem-se que são os mais velhos que lhes proporcionaram a vida que hoje têm e o futuro que vão ter.

Respeitem os idosos e as flores que têm direito a viver com toda a atenção e dignidade que lhes é devida.

Até.

 

 

 

Florbela

AlFernandes, 04.08.20

Aqui escrevo o que me apetece. E hoje apetece-me escrever sobre o cansaço. Não do cansaço físico mas do cansaço psicológico e intelectual. De certeza que não sou a única pessoa a sentir-me assim mas sinto-me como se fosse a única. 

Gostava que esta página fosse uma companhia com quem pudesse conversar, partilhar ideias, ouvir música, partilhar sentimentos, gostos e tudo o que quisesse, sem ter receio da crítica dura e fria. Claro que poderia e deveria haver lugar para a crítica, mas sem deixar mágoas.

Mas como esta página nunca o poderá fazer, vou engolindo as minhas mágoas. 

Florbela Espanca (a minha primeira coleção de poesia), era mestre na arte de escrever sobre o amor. Com ela, partilho agora a sensação de solidão (sem estar só), a tristeza de sentir essa solidão, a saudade de quem ainda está presente, e uma vontade enorme de não continuar. 

Estou cansada de lutar para não ser, e de lutar para ser.

Estou cansada de não conseguir ser.

Até.

Não me canso

AlFernandes, 23.07.20

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À esquerda o sol esconde-se e eu não me canso de ver o acontecer sempre que posso. E sempre que posso, também vejo o sol nascer à direita. E não me canso.

Não sei o que me deu, depois de tanto tempo sem teclar, voltar a deixar a ponta dos dedos ser a saída do pensamento. Bem, não pode sair tudo, senão poderia sair algo tipo hálito de cão depois de um manjar de comida  enlatada, e não seria nada agradavél.

Depois de uma espécie forçada de metamorfose ambulante, olho o mundo de forma mais diferente.

Mas nunca, nunca me canso de estar na ria Formosa que, parece ver (quase) tudo passar ao lado.

De dia, noite ou lusco-fusco, é sempre linda.

E convida a meditar.

Até!

A ponte que não é ponte

AlFernandes, 24.06.20

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Acho que este poderá ser um dos muitos infinitos de Olhão, a que o João Lelo se referia outro dia.

Esta estrutura está localizada em pleno parque natural da ria formosa, em Olhão, e já fez parte de uma ponte que provavelmente "desapareceu" por falta de manutenção.

E a culpa não se aponta porque não se deve ou não se sabe de quem será. Espero estar errada mas acho que esta estrura está destinada a ser entulho se entretanto não for recuperada.

Se fosse recuperada era bonito, porque o infinito do horizonte que se avista é fantástico!

 

1988

AlFernandes, 09.06.20

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Aqui estava num dos estúdios da RR (1). Esta foto deve ter sido tirada a um domingo no noticiário das 13 horas, depois da onda marítima e "porlongamento". Nesta imagem não há computadores, leitores de cd's nem nada equivalente. Era tudo analógico. Desde gira-discos, fax - que não se vê -, sem contar com o leitor de K7's duplo- que tambem não se vê-, que nos permitia editar as gravações das entrevistas com o auxílio do técnico de som- que tinha de ter um método cirúrgico no corte da edição. Ao fim de semana ainda tinha de  atualizar  o desporto. Havia noticiários que chegavam a durar mais de 15mn. Tinha que haver muita ginástica respiratória e vocal.

Ao ler, tinha que agarrar e virar as folhas, e quando havia um "registo de som" a entrar, tinha que ser tipo polvo: agarrar e mudar de folha, dar ordem de início e fim de RM, sem nunca perder o nexo do texto, não fosse o técnico de som peder-se. Do lado técnico a ginástica não era diferente. Era dedos e cérebro a trabalhar ao mesmo tempo, enquanto dos dois lados, se tentava manter uma comunicação quase a adivinhar o que o outro nos queria dizer. Nos diretos a comunicação com o técnico era quase como se fosse telepatia.

Tinha que haver horas e horas de trabalho em conjunto, para sair bem, quase sem "artifícios".

Agora é mais fácil. Ou não.

Para quem gosta de comunicar é igual.

Até.

 

 

Natureza

AlFernandes, 09.06.20

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Dizem que as pedras são apenas pedras. Um objeto, sem identidade, sentimentos e relações.

Tirei esta foto numa das nossas caminhadas pelo campo. O que mais me fascinou foi a forma ternurenta como a árvore cresceu "abraçando" a pedra. Note-se que a árvore é um ser vivo mas não lhe é atribuída a capacidade de ter sentimentos. No entanto, eu acho, aqui está uma mensagem da natureza, que nos diz que sabe cuidar muito bem de si. Gostava que os meus netos em 2050 fossem visitar este local e o reconhecessem como uma prova de amor da natureza, para com a natureza.

Até!

C:\del*.*

AlFernandes, 07.06.20

C:\del*.* Era bom que fosse assim. Fosse fácil de apagar os estragos feitos pela humanidade e que põem em risco, não só a continuação da nossa espécie como a da maioria das espécies que habitam o nosso planeta. Nem todas as espécies são tão resistentes como a barata, por exemplo.

Está muito enganado quem acha que a melhor herança é o dinheiro ou bens que o porpocionem. Não tenho nada disso para deixar à minha filha e aos seus descendentes.

Deixo o gosto por comunicar. Deixo uma educação ambiental sustentavél. Deixo o respeito pelo próximo. Deixo a liberdade de ela ser quem quiser. Deixo amor para que ela distribua como entender. E deixo, espero, boas memórias.

Uma boa conta bancária e fontes de rendimento fazem falta, realmente. Mas se não tiveres respeito pelo próximo, se não fores uma pessoa genuína, se não tiveres amor, de que te serve ter bens materiais? Nunca serás respeitada pelo que és, mas sim pelo que tens, e que pode acabar um dia.

O meu pai, o meu irmão e a minha mãe deixaram-me o que consta no terceiro parágrafo. E ainda bem. Não sou rica, mas dou imenso valor à minha herança.

Até.